O Future Affairs Forum foi uma conferência internacional de dois dias promovida pela União Europeia em parceria com o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em junho de 2026. Fomos convidadas a participar das Oficinas Comunitárias organizadas pela Artigo 19 e pela GIG. Primeiro participamos do Pré-futuros Tropixel na Casa Ngira e seguimos para dois dias no Museu.

O evento promoveu debates sobre geopolítica e as transformações que estão moldando o futuro, com destaque para temas como soberania digital, uso ético da inteligência artificial e o futuro do trabalho, além de discussões sobre resiliência urbana, impactos das mudanças climáticas e fortalecimento dos laços e valores democráticos compartilhados entre Brasil e Europa.

Foram dias intensos de encontros, trocas e confabulações entre diversos setores da sociedade civil, organizações não governamentais e instâncias governamentais, buscando convergir desejos e propostas para uma transformação digital mais igualitária e para a construção de cidades inteligentes. O objetivo foi fortalecer o diálogo entre Brasil e União Europeia em torno de soluções para os desafios globais contemporâneos e para a construção de um futuro mais sustentável, inclusivo e centrado nas pessoas.

Além das iniciativas brasileiras relacionadas ao governo eletrônico, destacaram-se o PIX e a plataforma Gov.br como modelos de governança digital. No entanto, chamou atenção o aparente apagamento de uma trajetória importante relacionada à cultura digital, cujo ápice ocorreu no início dos anos 2000 com iniciativas como os Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura, e o GESAC, do Ministério das Comunicações. Suas estratégias de letramento digital, ações de acesso comunitário à internet e oficinas com lideranças locais em diferentes regiões do país construíram experiências fundamentais de democratização tecnológica. Esse momento foi retomado e celebrado por Francesca Bria em sua fala sobre outras possibilidades de governança. Também marcante a intervenção de Sueli Rolnik, que trouxe para dentro do Museu a memória da própria região portuária do Rio de Janeiro, refletindo sobre os processos de apropriação e transformação urbana que remodelaram profundamente a cidade, mas infelimente não a partir da perspectiva de seus moradores. Esse “o que poderia ter sido” tanto partindo de um ponto de vista positivo quanto negativo. Moldaram o clima geral de querer procurar soluções mais enraizadas para as novas tecnologias.

Nas Oficinas realizadas no laboratório do Museu do Amanhã, reuniram-se aproximadamente 30 organizações da sociedade civil, artistas e convidadas para discutir suas aproximações com os temas abordados no evento e compartilhar experiências relacionadas ao cotidiano do trabalho de promoção de uma cultura digital livre. Entre os temas discutidos estiveram redes sociais federadas, propostas de inteligência artificial comunitária, estratégias de mídia nas periferias, memória das redes digitais e interações com o meio ambiente.

As Oficinas resultaram na construção coletiva de uma Carta elaborada a várias mãos, sintetizando o desejo de ver essas iniciativas reconhecidas e apoiadas após um longo histórico de atuação junto às comunidades. Nossa contribuiçã́o com a carta foi tanto no sentido de colocar propostas mais incisivas como objetivo de buscar resultados mais concretos como também na inclusão de termos estratégicos como “decolonial” e “interseccional”.A leitura da carta-manifesto, entre tantas outras mesas de interesse público, ressaltou de forma inequívoca a necessidade de descolonizar modelos de “transferência” tecnológica que beneficiam prioritariamente as big techs, afirmando, em seu lugar, a importância de fortalecer as comunidades e reconhecer o longo e potente trabalho que já vem sendo realizado em seus territórios.

Carta-manifesto por Futuros Comuns*

*Esta carta é um protótipo, uma primeira versão, e está aberta a contribuições.

Nós, organizações da sociedade civil brasileira, coletivos, laboratórios, comunicadoras, artistas, ativistas, educadoras, pesquisadoras, juventudes e comunidades reunidas nas oficinas comunitárias, chegamos ao encerramento do primeiro Future Affairs Forum com uma convicção simples: os futuros já estão sendo construídos no presente.

Nos territórios, nas periferias, nas escolas, nas redes livres, nas aldeias, nas favelas, nos laboratórios cidadãos, nas cozinhas coletivas, nas rádios comunitárias, nas ruas, nos corpos, nas memórias e escrevivências (salve Conceição Evaristo) que insistem em sonhar, produzir, defender e encantar a vida.

Por isso, falamos à União Europeia e às autoridades não apenas como pessoas destinatárias de políticas, mas como detentoras e produtoras de conhecimento, tecnologia, democracia e imaginação radical decolonial.

Pedimos que olhem e entendam o Brasil, profundo e soberano, não como campo de testes, mercado consumidor ou reserva de dados, energia e minérios, mas como território vivo de soluções que já existiam, existem, persistem e que podem ser potencializadas através de reconhecimento, financiamento, infraestrutura, proteção e continuidade.

O fim do mundo se aproxima quando o mundo aceita e favorece monopólios, monoculturas e mono futuros. Se aproxima quando a inovação é confundida com extração; quando data centers sacrificam territórios; quando algoritmos permanecem opacos; quando a inteligência artificial se alimenta de nossos trabalhos, culturas e dados, sem devolver valor às comunidades; quando a democracia é reduzida a consulta, e a participação vira adorno.

Como ideias, e propostas concretas, para adiar o fim do mundo (salve Ailton Krenak), reafirmamos a tecnodiversidade, os bens comuns, o software livre, as redes federadas, a comunicação pública e comunitária, a geração cidadã de dados, a memória coletiva e as tecnologias ancestrais, digitais, analógicas, negras, indígenas e periféricas que coexistem neste país.

Não nos falta imaginação e inovação. Faltam políticas à altura das iniciativas populares que já sustentam a vida. O que pedimos é que a cooperação internacional deixe de financiar apenas vitrines comerciais de futuro e passe a fortalecer as raízes do que já está em construção pelos povos de Abya Yala.

Reunidas aqui neste entorno repleto de passado – o Cais do Valongo, a Pequena África e a primeira favela – convocamos a União Europeia a contribuir com melhores futuros, investindo em soluções abertas, auditáveis, públicas e comunitárias; em tecnologias de baixo impacto ambiental; regenerativas de ecossistemas; em independência e soberania digital; em fundos que protejam criadoras, trabalhadoras, cientistas, artistas e comunidades afetadas pela automação; em infraestrutura que não sacrifique territórios em nome da eficiência; em alianças que redistribuam poder e não apenas recursos.

Que a atenção e os recursos públicos fortaleçam conhecimentos comuns. Que a cooperação internacional reconheça autorias, autonomias e protagonismos locais e coletivas. Que os territórios deixem de ser consultados apenas depois das decisões tomadas e sejam os proponentes de nossos futuros.

Os futuros que queremos não cabem no singular. São plurais, diversos, antirracistas, radicalmente democráticos, feministas, comunitários, tecnológicos e ancestrais. São confluências envolventes com a natureza (salve Nêgo Bispo).

Eles (re)nascem e se fortalecem quando crianças, jovens e idosos participam das decisões que moldam suas vidas; quando periferias e povos indígenas são reconhecidos e financiados como centros de tecnologia e saberes; quando a comunicação é tratada como direito e não produto; quando a economia serve ao cuidado do povo; quando o digital alimenta o encontro físico; quando ciência, arte, cultura e política caminham com os pés no chão.

Pedimos que escutem, invistam, protejam e caminhem juntos com quem já pratica futuros comuns no agora. Porque, se há uma responsabilidade global diante das crises do nosso tempo, ela começa por impedir que as tecnologias do presente repitam as violências do passado. Que a cooperação entre Brasil, América Latina e União Europeia não seja uma ponte de mão única para novos extrativismos, mas para alianças afetivas por futuros comuns.

Nós, participantes das oficinas comunitárias, nos colocamos à disposição, com entusiasmo, para co-criar presentes e futuros comuns através das seguintes formas:

De Pindorama para o mundo, afirmamos: os futuros comuns já estão plantados onde há cuidado, comunidade, memória e coragem. Cabe às autoridades presentes decidirem se irão apenas assistir a esse florescimento ou se terão a ousadia política de se envolver na manutenção e no cultivo desse ecossistema plural e diverso.

Registro de assinaturas (organizações participantes das oficinas comunitárias Future Commons Futures no Future Affairs Forum 2026):

  1. A Cidade Precisa de Você 
  2. Agência Lume 
  3. ARTIGO 19 Brasil e América do Sul 
  4. autônoma: cidade, territórios e direitos 
  5. Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas 
  6. CTRL+Z 
  7. Dataprev 
  8. Enlaight 
  9. Fabulosa Lab 
  10. Fala Roça 
  11. Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro
  12. Gênero e Número
  13. Girl UP
  14. Global Innovation Gathering 
  15. Goethe-Institut Rio de Janeiro 
  16. i-motirõ 
  17. Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial 
  18. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
  19. Instituto Cidade Democrática 
  20. Instituto Federal do Rio de Janeiro 
  21. Instituto Fogo Cruzado 
  22. Instituto Papo Reto 
  23. Instituto Toriba 
  24. IPÊ, Instituto de Pesquisas Ecológicas e Biodiversas Lab 
  25. Laboratório 2050 de inovação e tecnologia
  26. LGBT+Movimento 
  27. Maré de Vida Verde
  28. Maré 0800 
  29. Mídia Tática 
  30. Mycelium Tecnologia 
  31. Nem Presa Nem Morta 
  32. Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Labjor/Unicamp) 
  33. Procomum 
  34. Redes da Maré 
  35. Silo – Arte e Latitude Rural  
  36. ubatuba.cc
  37. Viração Educomunicação
  38. WhE play