A mídia tática emerge com a popularização das tecnologias digitais e eletrônicas e com a expansão do acesso à internet. No Brasil, ganha novo impulso nos anos 2000, quando redes de mídia independente, rádios livres, software livre, metareciclagem e outras práticas de apropriação tecnológica contra-hegemônica começam a se conectar e a se multiplicar pela WWW.

Essa primeira geração encontrou-se em festivais, oficinas, laboratórios e encontros públicos ligados aos movimentos altermundistas — espaços onde se experimentava a ideia de que outros mundos eram possíveis e, sobretudo, de que era possível construí-los coletivamente.

É nesse contexto que nasce o Midiatatica.net, a partir da memória autônoma dessas colaborações entre pessoas que participaram dessas redes pioneiras da internet brasileira. O ponto catalisador foi o festival-laboratório Mídia Tática Brasil, realizado em São Paulo, em 2003. Mais do que um evento, o festival foi um lugar de encontro, experimentação e articulação que deixou como legado uma série de conexões, projetos e iniciativas que continuaram a reverberar nas décadas seguintes.

Ao longo de aproximadamente duas décadas, essas redes produziram práticas de letramento digital alternativo, intervenções no território e experimentações com software, hardware, licenças e espectros livres. Práticas de reciclagem, remix, gambiarra e apropriação tecnológica caminharam lado a lado com experiências de comunicação independente, artivismo e formulação de políticas públicas culturais voltadas à tecnologia, à comunicação e aos direitos. Experiências que ajudaram a inventar outras formas de fazer tecnologia, comunicação e cultura no Brasil.

Midiatatica.net é portanto acervo-pesquisa, um processo de tecitura feito de fragmentos, rastros, conexões e enraizamentos: uma seleção de registros digitais que atravessam o tempo, gerações, tecnologias, redes, pessoas, imagens, códigos e experiências. Não pretende contar uma história única ou definitiva, mas reunir alguns dos fios que compõem uma história coletiva. Diante de um apagamento sistemático das experiências (terraplanagem digital) dos grupos de mídia tática, independente e artivista no Brasil, nosso desejo é que essas narrativas voltem a circular no espaço mesmo em que surgiram, a Internet, reavivem-se, continuem circulando, remixando-se e encontrando novas pessoas, novas redes e novos mundos possíveis.